A dor e o silêncio

Uma carta, escrita de próprio punho. Caneta esferográfica, de ponta fina, em uma folha branca, sem pauta, mas todas as linhas retas.

O autor dizia, na carta, que não conseguiu pagar as últimas mensalidades da escola particular. Assumia a sua dívida e explicava o motivo dela: não conseguiu nenhum contrato nos últimos meses. Teve que demitir muita gente. A sua pequena empresa só rendeu a verba suficiente para comida, luz e água. Sabia que devia, mas gostaria que o filho continuasse na escola. A família tinha anos de presença naquela escola, e ele pagaria quando pudesse.

Ao final, uma assinatura formal, o nome completo, e o pedido para que aguardasse na sala ao lado. Aguardava de cabeça baixa, tentando evitar olhar nos olhos de quem passasse por perto.

Quem estava por perto era eu. A história dele, normalmente, não vai para as estatísticas porque existem tantas outras mais graves. As famílias que morrem porque queimaram lenha tóxica, sem dinheiro para pagar o gás; as pessoas que vão morar nas barracas do Viaduto Otávio Rocha; as famílias que ocupam prédios públicos por não ter dinheiro para o aluguel; os miseráveis pedindo ajuda e comida pelas esquinas.

Perto de tantos miseráveis, aquela pessoa era apenas um microempresário em crise. Ainda tinha roupas, calçados, e podia tomar um banho. Um privilegiado, alguém diria.

André Toretta, sócio da Cambridge Analytica-Ponte, deu uma aula sobre marketing político visando as eleições de 2018 na Folha de São Paulo. Entre todas as frases, eu destacaria esta:

 “Qual é o discurso do centro hoje? “Ah, estamos salvando o Brasil”. Desculpe, eu continuo desempregado, próxima página.”

Voltando ao caso daquele homem. Ele, aparentemente, pensou em fechar a empresa e pedir emprego – era o que estava escrito na carta. Não conseguiu, porém: beirava os 50 anos, e o mercado estava fechado.

Observe: essa pessoa não entra no espectro moral, ético ou político de ninguém. Não há reforma do Estado, bandeira da centro-direita, que melhore a sua vida. Não há retorno da ordem democrática, bandeira da centro esquerda, que faça a sua empresa voltar a crescer. Se expulsarem o PT e acabarem com a ideologia de gênero, bandeira da extrema-direita, ele continuará desempregado.

Se a extrema-esquerda derrubar o capital com saraus, escrachos, pixos, máscaras pretas e armas, muitas vidraças de bancos serão quebradas, e ele continuará desempregado. Se a esquerda cirandeira construir 40 blocos de Carnaval para pregar o amor livre e a sua moral superior sobre todas as pessoas que têm preconceitos, rigorosamente nenhum contrato que lhe coloque comida na mesa aparecerá.

Se a direita cirandeira falar em consciência fora do corpo, robôs, sair da zona de conforto e encher 40 auditórios com empreendedorismo de palco, ainda assim, nenhum boleto dele será pago.

Um cenário de crise econômica pessoal traz dor. A dor do silêncio e da vergonha. Essa dor arruina casamentos, dilacera a força de vontade. Essa dor também acaba com a autonomia, pois a pessoa acaba baixando a cabeça para os piores cenários, os piores assédios, porque precisa de alguém que lhe pague. E, depois de receber a grana, vinda com espinhos, cacos de vidro, cuspidas e exploração, a pessoa come o vidro moído com areia no café da manhã, levanta a cabeça, põe um sorriso nos lábios e a dor, ah, a dor continua ali.

E quem aparece para dar conforto, nessas horas? Normalmente, duas instituições: a família e a religião.

A religião, especialmente, tem o poder de diminuir a dor das pessoas. Seja através do diálogo – qual foi a última vez em que você realmente parou para ouvir as dores de alguém? – ou dos processos místicos de tentativa de cura. A fogueira santa, o demônio sendo retirado, o dízimo que salva, a água benta, a oração salvadora, o ponto do orixá. Tudo isso traz conforto à alma. É um curativo, ainda que pequeno, à dor diária.

E nisso, obviamente, essas pessoas podem se tornar alvos fáceis de aproveitadores, que usam a sua boa fé e a sua necessidade de conforto para obter vantagens financeiras.

Em qualquer cenário, parece claro que a política não está lidando com o Brasil real. O Brasil da dor e do silêncio. Já foi o Brasil que saiu a gritar pelos seus direitos. Hoje, esse Brasil está machucado, silencioso, acabrunhado em casa, vendendo o almoço para pagar o jantar.

Quando o pastor sabe lidar mais com o Brasil real do que o indivíduo com pretensão política, o País fica preso em um século que não é este.