As crianças sempre vão para a escola

Existe uma máxima no jornalismo: o jornal sempre fecha. Parece que nunca vai fechar, mas sempre fecha. São muitas as lendas em cima do desespero da hora do fechamento, dos dias com notícias a mais, dos dias com notícias a menos, mas no fim, ele sempre fecha, e as pessoas sempre recebem o jornal do dia nas suas casas.

 

Assim como o jornal sempre fecha, as crianças sempre vão à escola. É uma regra. Por mais que tudo esteja dando errado, isso vai acabar acontecendo.

Os pais vão entender.

A sensação é sempre desesperadora. Acordar as crianças, dar café da manhã, arrumar elas. O filho que começa a berrar sem nenhum sentido. A filha que se recusa a entender que “estar pronta em cinco minutos” não significa “daqui a cinco minutos eu começo a me mexer”.

Tem um ponto para ser batido. Tem uma hora para chegar. Ou duas. Ou três. Ou mais.

 

Durante mais de um ano, essa função foi minha. Eu sempre soube a importância da rotina. “Dá horário para todas as coisas, estabelece um plano, faz lista de tarefas, tudo vai dar certo”. Aham.

 

E, de fato, é bom fazer tudo isso. Tenha uma agenda à mão – DE PAPEL, pq se for confiar só no celular você vai se perder nas notificações e o caos reinará. Acorde cedo e faça o checklist. Faz uma baita diferença. Ou vá dormir com o checklist feito.

Mas sim, sempre vão acontecer coisas absolutamente surreais que vão alterar tudo.

Teve uma vez, por exemplo, em que tinha que fazer um VÍDEO de uma EXPERIÊNCIA CIENTÍFICA naquela manhã.

“A experiência tá pronta, Morgana?”
“Claro, é só fazer”
Dois dias depois
“Já fez a experiência, Morgana?”
“Não, não fiz, mas é simples”
No mesmo dia, 9h
“Tá, Morgana, vamos gravar a experiência”
“Ok, mas deixa eu fazer o tema antes”
Chegaram as 11h. Tínhamos que sair, NO MÁXIMO, às 13h. Eu ainda tinha que fazer almoço, organizar a mochila do pequeno, dar banho nele, sair de casa.

A experiência deu certo? É claro que não.

Absolutamente todas as coisas que poderiam dar errado entre as 11h e as 12h aconteceram. O experimento fracassou. Foi tentado outro. O outro fracassou. Aí o vídeo não gravou. Aí o pendrive não leu o vídeo.

Ficou sem vídeo. Gravamos outro dia.

 

Mas ela chegou na escola. O jornal fechou.

 

Teve um outro dia em que estava dando absolutamente tudo certo. O horário estava fechando direitinho, as crianças tomaram banho, o almoço ficou pronto cedo, estávamos com mais de meia hora de antecedência em tudo.

 

Aí toca o interfone. “Tem uma entrega da loja de colchões”. Eram duas camas, que chegaram com 15 dias de antecedência, ao meio-dia.

 

DUAS CAMAS.
QUINZE DIAS DE ANTECEDÊNCIA.
MEIA HORA ANTES DE SAIR DE CASA.

 

Vocês imaginam o caos.

No fim das contas, as crianças me ajudaram a subir as camas, elas ficaram no meio da sala, eu almocei correndo, me vesti mais rápido ainda, e deixamos para resolver o problema no final de semana. Mas as crianças chegaram na escola. O jornal fechou.

 

Esses são apenas dois casos. Tem vários outros. Quando se está cozinhando, então, os problemas em potencial são os mais absurdos. Desde você inventar fazer um bife à milanesa faltando vinte minutos para sair de casa até acabar o gás e ter que fritar os bifes na TORRADEIRA.

 

Mas de um jeito ou de outro, as crianças nunca faltam. Ou raramente faltam.

Lembro da cara de pau que meu pai tinha. Quando eu estava na primeira série, já sabia ler, e ele simplesmente não me levava para a escola. Pelos motivos mais absurdos.

 

“Ah, tá chovendo”
“Ah, muito calor”
“Ah, tu acordou muito tarde”
“Não precisa ir, tu já sabe ler”


Eu cheguei a ter mais de 20 faltas em um bimestre. Iria rodar por faltas. Já sabendo ler. Até que a diretora chamou minha mãe para uma conversa e, BEM, vocês imaginam o que deve ter rolado. Eu devia estar lendo um gibi do Tio Patinhas na época. O fato é que comecei a ir às aulas, e raramente faltei depois.

Não era uma boa coisa. Pensando bem, o desafio de ter um jornal que sempre fecha – as crianças sempre chegam na escola – todos os dias é incrível. Não tem dia bom, não tem dia ruim, não tem falta de vontade de sair da cama. As crises chegam, às vezes muito violentas, mas passam. Elas sempre chegam. O dia sempre passa.
E sempre há tempo para tudo, debaixo do céu.

(adoro Eclesiastes)

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A dor e o silêncio

Uma carta, escrita de próprio punho. Caneta esferográfica, de ponta fina, em uma folha branca, sem pauta, mas todas as linhas retas.

O autor dizia, na carta, que não conseguiu pagar as últimas mensalidades da escola particular. Assumia a sua dívida e explicava o motivo dela: não conseguiu nenhum contrato nos últimos meses. Teve que demitir muita gente. A sua pequena empresa só rendeu a verba suficiente para comida, luz e água. Sabia que devia, mas gostaria que o filho continuasse na escola. A família tinha anos de presença naquela escola, e ele pagaria quando pudesse.

Ao final, uma assinatura formal, o nome completo, e o pedido para que aguardasse na sala ao lado. Aguardava de cabeça baixa, tentando evitar olhar nos olhos de quem passasse por perto.

Quem estava por perto era eu. A história dele, normalmente, não vai para as estatísticas porque existem tantas outras mais graves. As famílias que morrem porque queimaram lenha tóxica, sem dinheiro para pagar o gás; as pessoas que vão morar nas barracas do Viaduto Otávio Rocha; as famílias que ocupam prédios públicos por não ter dinheiro para o aluguel; os miseráveis pedindo ajuda e comida pelas esquinas.

Perto de tantos miseráveis, aquela pessoa era apenas um microempresário em crise. Ainda tinha roupas, calçados, e podia tomar um banho. Um privilegiado, alguém diria.

André Toretta, sócio da Cambridge Analytica-Ponte, deu uma aula sobre marketing político visando as eleições de 2018 na Folha de São Paulo. Entre todas as frases, eu destacaria esta:

 “Qual é o discurso do centro hoje? “Ah, estamos salvando o Brasil”. Desculpe, eu continuo desempregado, próxima página.”

Voltando ao caso daquele homem. Ele, aparentemente, pensou em fechar a empresa e pedir emprego – era o que estava escrito na carta. Não conseguiu, porém: beirava os 50 anos, e o mercado estava fechado.

Observe: essa pessoa não entra no espectro moral, ético ou político de ninguém. Não há reforma do Estado, bandeira da centro-direita, que melhore a sua vida. Não há retorno da ordem democrática, bandeira da centro esquerda, que faça a sua empresa voltar a crescer. Se expulsarem o PT e acabarem com a ideologia de gênero, bandeira da extrema-direita, ele continuará desempregado.

Se a extrema-esquerda derrubar o capital com saraus, escrachos, pixos, máscaras pretas e armas, muitas vidraças de bancos serão quebradas, e ele continuará desempregado. Se a esquerda cirandeira construir 40 blocos de Carnaval para pregar o amor livre e a sua moral superior sobre todas as pessoas que têm preconceitos, rigorosamente nenhum contrato que lhe coloque comida na mesa aparecerá.

Se a direita cirandeira falar em consciência fora do corpo, robôs, sair da zona de conforto e encher 40 auditórios com empreendedorismo de palco, ainda assim, nenhum boleto dele será pago.

Um cenário de crise econômica pessoal traz dor. A dor do silêncio e da vergonha. Essa dor arruina casamentos, dilacera a força de vontade. Essa dor também acaba com a autonomia, pois a pessoa acaba baixando a cabeça para os piores cenários, os piores assédios, porque precisa de alguém que lhe pague. E, depois de receber a grana, vinda com espinhos, cacos de vidro, cuspidas e exploração, a pessoa come o vidro moído com areia no café da manhã, levanta a cabeça, põe um sorriso nos lábios e a dor, ah, a dor continua ali.

E quem aparece para dar conforto, nessas horas? Normalmente, duas instituições: a família e a religião.

A religião, especialmente, tem o poder de diminuir a dor das pessoas. Seja através do diálogo – qual foi a última vez em que você realmente parou para ouvir as dores de alguém? – ou dos processos místicos de tentativa de cura. A fogueira santa, o demônio sendo retirado, o dízimo que salva, a água benta, a oração salvadora, o ponto do orixá. Tudo isso traz conforto à alma. É um curativo, ainda que pequeno, à dor diária.

E nisso, obviamente, essas pessoas podem se tornar alvos fáceis de aproveitadores, que usam a sua boa fé e a sua necessidade de conforto para obter vantagens financeiras.

Em qualquer cenário, parece claro que a política não está lidando com o Brasil real. O Brasil da dor e do silêncio. Já foi o Brasil que saiu a gritar pelos seus direitos. Hoje, esse Brasil está machucado, silencioso, acabrunhado em casa, vendendo o almoço para pagar o jantar.

Quando o pastor sabe lidar mais com o Brasil real do que o indivíduo com pretensão política, o País fica preso em um século que não é este.